Entrevista Pintado: ‘Eu tento ver o que ninguém está vendo no São Paulo’

Antes de se consagrar como o raçudo volante Bicampeão da Libertadores pelo São Paulo, Luís Carlos de Oliveira Preto, conhecido como Pintado, era mais um jogador que já rondava o clube desde a década de 80. A exemplo de Adilson e Ronaldão, ele também era um “trabalho em progresso” no Morumbi. Teve de lutar para conseguir espaço no clube e um lugar no time de Telê Santana. No fim, sua luta acabou se tornando uma marca para a torcida.

Vinte e cinco anos se passaram e Pintado hoje é um dos pilares da reconstrução do São Paulo de Rogério Ceni. Direto, sincero e de uma simplicidade incomum no pomposo mundo da gestão do futebol, ele recebeu o SPFCharges (e Entrevistas, é sempre bom lembrar) para falar sobre sua história no clube, atual e passada.

No aniversário de 25 anos de nossa primeira conquista da Libertadores, qual é a primeira lembrança que lhe vem à mente?
Para mim foi um momento muito marcante, porque aquele time de 1992 entendia muito bem o que era uma grande conquista, sabia que um titulo deste tamanho ficaria para a história. Quando voltamos da Argentina no primeiro jogo, a gente sabia que estava muito próximo de ganhar o título. Do jeito que foi o jogo [1 a 0 para o Newell’s Old Boys], a gente sabia que tinha condição de reverter aqui. Aí você chega e vê o Morumbi lotado, com gente para fora, aquela história de que time brasileiro não ganhava Libertadores há muito tempo. Aquilo mexeu muito com a gente. Saímos da concentração no CT sabendo que íamos vencer. Ia ser difícil e teria que jogar no mais alto nível, mas o título era uma certeza, uma convicção.

Foi naquela derrota para o Criciúma na estreia que fechou o grupo?
Não, é que aconteceram algumas coisas depois daquela derrota que fortaleceram o grupo. O Telê ficou muito incomodado pelo resultado [3 a 0 para os catarinenses], depois houve aquela situação do Nelsinho, que não podia mais jogar. Nos reunimos e decidimos que queríamos que o Nelsinho ficasse. Chamamos o Telê no vestiário e o Raí transmitiu a ele nossa decisão. Ele disse: “vou chamar o presidente aqui e vocês resolvem isso com ele. Não tenho problema nenhum com o Nelsinho, isso aqui é uma questão profissional e ele não cabe mais no time. Aí em cima da decisão dele, eu decido o meu futuro”. No fim, acabou que o Nelsinho foi embora, por conta própria. Ele tinha uma lesão séria no tornozelo, precisava tratar. Foi muito profissional, como todas as decisões e as colocações que foram feitas. Não houve confronto.

Na final você estava com um curativo no queixo. Como foi o lance em que você se machucou?
Eu estava tão pilhado, tão concentrado nessa final que parecia que eu tinha tomado alguma coisa [risos]. Naquele dia eu já acordei diferente, tinha ido dormir pensando no jogo. Eu ia em todas as bolas, queria participar de todos os lances. Defensivamente, principalmente, apertando, pressionando. Ai quando eu fui disputar uma bola na lateral direita, me choquei com o cara, ele me derrubou e eu caí de queixo numa parte de concreto fora do campo. Quando eu pus a mão, o queixo estava aberto, tinha cortado.

Nesse sentido de luta, a conquista de 92 foi muito diferente da de 1993?
Acho que em 92, por ser a primeira, tinha um clima, uma coisa especial, que concretiza o time vencedor de 1991, e era o primeiro passo para sermos campeões do mundo. Era uma equipe que nunca se sentiu superior a ninguém, mas essa primeira Libertadores nos deu confiança. Em 93, a gente já entrava como atual campeão, então aquele 5 a 1 na primeira final não foi por acaso.

E no Mundial de 1992, o que você guarda daquela partida contra o Barcelona, além da soberba deles?
A gente já esperava isso, porque eles eram o melhor time do mundo naquele momento, era um “Dream Team” que tinha vencido a Champions. Tínhamos vencido eles no Tereza Herrera [torneio realizado na Espanha, em agosto de 1992], então a gente já sabia o que ia enfrentar. E a gente percebia o incômodo, o nervosismo deles de estarem enfrentando um time tão bem armado, mesmo depois que eles fizeram 1 a 0. Eles tentavam as jogadas e não conseguiam. Nós nunca perdemos nossa maneira de jogar, não nos abalamos em nenhum momento.

Na entrevista que fiz com Zetti, ele me disse que você era como um capitão sem faixa naquele time e que o Raí era movido pelos seus gritos em campo. Como você exercia sua liderança?
Eu sabia que era a oportunidade da minha vida como jogador. Eu não podia só jogar, tinha que ganhar. Isso servia de motivação para mim todos os dias. Como eu não era um cara tão habilidoso, eu tinha que acrescentar alguma coisa para aqueles caras. A habilidade era o Raí, a alegria era o Macedo, cada um tinha algo particular, então eu tinha que empurrar os caras. O Raí vinha pedir para eu falar e gritar com ele. O Ronaldão também tinha isso de empurrar, a gente estava sempre discutindo, sempre brigando. Mas era uma coisa muito carinhosa. Era um “vai tomar no cu” com carinho, tipo “ô, filho da puta, dá pra você ajudar um pouco?” [risos]. Havia muito respeito, todo mundo sabia que o outro iria interpretar dessa maneira. Não havia vaidades, isso de um querer aparecer mais que o outro, quem ganha mais, nada disso. Todos sentiam muita amizade e levavam para dentro do campo.

Você começou no Bragantino e chegou ao São Paulo em 1984, mas entre 1987 e 1991 você foi emprestado de volta ao Bragantino. Como foi seu retorno ao São Paulo em 1992 e como você se tornou titular?
Foi um momento muito difícil para mim [fica com os olhos marejados]… Sempre que ia renovar com o Bragantino, como eu era da cidade, ninguém vinha dizer “agora nós vamos fazer um contrato legal pra você, vamos te ajudar”. Nunca. Eu sempre era o último. Naquela época não havia o passe, a gente era escravo do clube e, como eu tinha sido emprestado pelo São Paulo, eu ia renovando e ficando. E o Bragantino começou a ganhar alguns títulos, veio o Luxemburgo, o Parreira, era um momento bacana para o clube. Eu estava na minha cidade, tinha acabado de casar, com filho pequeno, pensei em ficar com por lá, porque era o que eu tinha garantido. Mas o Bragantino achava que meu passe era deles e não sabiam que no contrato havia uma rescisão que me permitia voltar ao São Paulo. Quando voltei, eu não podia aparecer no clube, porque o Bragantino tinha entrado na justiça para reaver o passe. O presidente disse que se eu quisesse ir, eu nunca mais jogaria pela Bragantino. Quando cheguei no CT, o Moraci [Sant’anna, preparador físico] disse “pode se trocar pra treinar, o Telê quer te ver no campo”. Tudo o que queria era uma oportunidade, uma porta aberta. Eu era o primeiro a chegar e o último a sair. Se era para dar dez voltas no campo eu dava doze. Sempre algo a mais para poder ficar, e o Telê percebeu isso. Ele já tinha me visto jogando como volante, porque o Parreira já tinha me escalado nessa posição. Mas no jogo contra o Criciúma, era um time misto que ia jogar, não tinha lateral e ele me escalou na lateral. Perdemos, mas depois ele me escalou como volante e não saí mais do time.

Como o Telê era com você? Qual imagem você guarda dele?
Extremamente exigente. Super sério. Nunca facilitou comigo. Sempre cobrou muito, e todos que entenderam essa situação na época hoje têm uma vida estável. Aqueles que interpretaram isso como coisa de cara chato, rabugento, hoje passam dificuldade, quase não têm onde morar. Isso a gente falou na época para eles e avisava “o dia que ele não cobrar mais de você, é porque ele já te largou”. Muitos tiveram problemas com o Telê. Macedo, Catê, Vitor, Muller, Palhinha… Os caras ganharam muito dinheiro, três vezes mais do que eu, mas eu soube administrar bem o que eu ganhei e hoje alguns não têm nem onde morar. Isso me deixa muito triste, muito chateado, porque são meus amigos.

E você reviu todo o pessoal na despedida do Rogério Ceni…
Ah, aquilo foi impressionante. Falei pro Rogério que o mais legal foi que todos nós nos sentimos homenageados.

E como foi a sua volta ao São Paulo, há pouco mais de um ano?
Eu sempre tive certeza de que eu voltaria para o São Paulo. Quando eu saí para o Cruz Azul [do México], eu me distanciei, mas nunca deixei de estar por dentro do que acontece no São Paulo. Então para voltar, eu não queria errar como errei da primeira vez que cheguei. Eu não estava bem preparado. Era um menino humilde do interior e me encolhi. Eu não sabia quanto tempo ia demorar, mas decidi que, quando eu voltasse, eu estaria preparado. Não queria voltar como ex-jogador. Já tinha dez, doze anos de experiência como treinador, fui assistente do Cruz Azul, fui fazer curso de administração no futebol, falo dois idiomas.

O que mudou do Pintado treinador para o auxiliar técnico?
Na verdade a função é quase a mesma. É claro que ter um cara como o Rogério, um ídolo, facilita bastante para quem está embaixo. Ele absorve muita coisa, e eu tento ver o que ninguém está vendo. Tento buscar essa coisa a mais e fazer esse meio campo entre atletas, comissão técnica e diretoria. É uma responsabilidade muito grande.

Quanto você acha que tem do Telê no Rogério?
O Rogério tem muita personalidade, muito sério, exigente com ele mesmo, suga muito pra ele, sente muito, ele não aceita perder. O Telê era assim, sofria muito, muito fechado. Isso é o que tem de mais parecido entre os dois.

O time atual tem sido criticado pela quantidade de gols que tem tomado, principalmente em bolas paradas. O que está sendo feito para corrigir isso?
Primeiro o Rogério tem cobrado muito de todos, do que podemos observar e levar para mesa e compartilhar. Acho que por ter jogado no gol ele tem muito claro qual a importância de os zagueiros disputarem uma bola, aguentar o choque, ou de você fazer uma parede para o outro vir e ganhar o lance. Essas responsabilidades que ele está cobrando no dia a dia.

Na imprensa e em parte da torcida tem havido reclamação de que o Rogério usa a posse de bola e outros números para justificar derrotas. Qual a sua avaliação?
Bom, parece que só no Brasil que a estatística não vale. Na NBA, na NFL, em qualquer grande empresa do mundo os números são muito importantes. No futebol parece que é desculpa, mas eu não vejo assim. O número acho que é uma análise mais fria do jogo. A informação de eu ter mais posse de bola, ser mais agressivo, chegar mais vezes ao gol é muito importante para nós. Se analisarmos apenas o ganhar ou perder, a gente perde muito a essência do trabalho. Ai não precisamos treinar, assistir vídeos, observar adversários. Tem várias maneiras de ganhar, até com erro de arbitragem. Os números refletem o que fizemos em campo. Não existe azar ou sorte. Existe competência, existe trabalho. O que fazer com mais posse de bola? É o principal instrumento do jogo. Para ganhar, precisa ter a bola, mas não adianta ficar só tocando na defesa.

Muitos torcedores veem com preocupação o elenco reduzido do São Paulo, que tem 34 e vai ficar com 29 jogadores. Com eventuais contusões, não é perigoso trabalhar com tão poucas peças?
O que a gente avalia não é a quantidade, mas a qualidade. Normalmente, quando se vai para jogo, usamos 14 jogadores. E precisa fazer as contas, porque você não vai ter 20 jogadores do nível do Lucas Pratto e do Cueva. Precisa compor o grupo. Para poder dar mais atenção para alguns atletas que precisam de um trabalho individualizado, precisa ter menos número. É difícil fazer um trabalho coletivo deixando dez jogadores de fora. E desses dez, quantos serão utilizados Não vai dar treino para quem não vai jogar, então você deixa de dar treino para quem precisa. E todos que estão lá precisam lutar para jogar. É difícil para o atleta entender que só vão jogar onze e que só três vão entrar. Ele não vai entender, mas precisa respeitar a decisão do treinador, que não é o dono do time, mas é responsável por ele. Quem joga está feliz; quem está no banco, mais ou menos, e quem não joga está puto. E tudo bem que esteja puto, mas treine para jogar. Não fique ali quietinho, sentado no banco, dando migué.

Como você enxerga as lideranças de Lugano, Maicon e Lucas Pratto dentro do elenco?
São muito diferentes. É sempre muito importante ter várias lideranças num grupo. Tem outros líderes ali dentro. O Jucilei, o Bruno, Rodrigo Caio. Mas são maneiras diferentes de liderar. Como temos alguns estrangeiros no grupo, é importante ter alguém que saiba transmitir o que está pensando. O Lugano tem uma história, tem o peso de Copa do Mundo, a personalidade, da garra uruguaia, e isso é muito importante para a gente. O Maicon ganhou a torcida de uma maneira muito especial, como há muito tempo a gente não via. Isso também tem um peso importante. E o Lucas Pratto por ser um goleador. Ele era capitão no Atlético-MG, e eu sei que isso é difícil porque eu joguei lá. Minas, bairrista pra caramba, e dão a faixa de capitão para um argentino? Esse cara tem algo de diferente.

Tem havido um grande debate sobre as simulações dos jogadores em campo e a atitude de Rodrigo Caio chocou a torcida e a imprensa. O que você pensa sobre isso?
Primeiro de tudo, que bom que posso falar sobre isso. Eu achei que foi um negócio exagerado o que fizeram. Comparar a situação do Rodrigo Caio com a Lava Jato? Tá louco? Então quer dizer que se eu não falar que uma bola saiu eu sou igual o cara que roubou 10 milhões? A gente entende que esse é o momento que vivemos no país, mas com a educação tão limitada que temos, não pode jogar isso para o povo. Não podemos levar para esse lado. É óbvio que o Rodrigo Caio não está errado, mas no futebol não é assim. Você está competindo. Então vale qualquer coisa? Claro que não. Eu talvez não fizesse o que ele fez. Eu preciso ganhar, mas preciso competir com as mesmas armas. Também não é questão de se chora a minha mãe ou a sua. Não tem nada a ver. É um palavreado de dentro de campo, não se pode dar tanta importância para isso. O Rodrigo fez certo, quem errou foi o árbitro, que viu o Jô empurrá-lo e ele pisar no Renan. Foi isso que ele marcou. Eu não posso ir para um jogo e não disputar com as mesmas armas que você. É muito desigual, porque a minha chance de ganhar vai ser muito pequena.

Você não achou meio ridícula a encenação do Antonio Carlos Zago? Com tantas câmeras pegando tudo, fica fácil descobrir a farsa…
Mas na hora do jogo ninguém pensa em câmeras, pensa em ganhar. Isso mostrou apenas que naquele momento ele encontrou uma maneira de ganhar a jogada. Não quer dizer que ele é ladrão, que ele rouba, que ele mata.

Você acha que a chegada do árbitro de vídeo vai ajudar nesse aspecto?
Eu acho importante. No mundo de hoje você não pode viver sem esse tipo de informação. Não dá mais para continuar com polêmicas. Para a imprensa pode ser uma polêmica, mas, para mim, como treinador, se eu perco o jogo por um erro de arbitragem, estou fora. Isso é injusto.

* colaborou: Haron Alcântara

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