Entrevista Darío: ‘A torcida precisa estar preparada para sofrer’

Ao lado de Pablo Forlán, Pedro Rocha e Diego Lugano, Alfonso Darío Pereyra Bueno forma o quarteto dos “Deuses da Raça” uruguaios que fizeram história no São Paulo. Esteve na festa de Rogério Ceni apenas como espectador, pois é de uma geração anterior (mas não menos importante) à que conquistou o mundo pela primeira vez em 1992. Foi em seus 11 anos de honrada militância com a camisa tricolor que nossa zaga se transformou num paredão que impunha respeito aos adversários.

Com um estilo que aliava classe, boa colocação e, obviamente, muita garra, formou ao lado de Oscar o que muitos tricolores acreditam ter sido a melhor dupla de zaga de nossa história. Títulos não faltaram. Ao todo, foram dois Brasileiros (1977 e 1986) e quatro Paulistas (1980, 81, 85 e 87). Pela Seleção Uruguaia, jogou a Copa de 1986, perdendo para a Argentina de Maradona nas oitavas de final.

Simpático e atencioso, Don Darío atendeu ao SPFCharges (e Entrevistas, por que não?) no Salão Nobre do Morumbi. Aprovou a volta de seu compatriota Lugano – o último dos Deuses da Raça – e deixou um aviso: “uma reformulação é sempre muito difícil, então a torcida precisa estar preparada para sofrer”. Na entrevista a seguir ele fala sobre a atualidade do clube, de seus tempos de jogador e do futebol uruguaio.

O que achou da despedida do Rogério Ceni?
Foi muito boa, no sentido de valorizar um jogador que ficou tantos anos fazendo sucesso e dando praticamente a vida dele ao São Paulo. E foi bom também para que os jogadores pudessem se reencontrar, como os de 1992 e 93, que voltaram a jogar no Morumbi. Foi uma festa muito bonita. Acho até que deveriam ter feito outras em épocas passadas. Veja o caso do Raí. Poderiam ter feito. Mas essa festa abriu uma janela importante para que outras comemorações aconteçam. Agora tem o Lugano. Se ele terminar a carreira aqui, podem fazer para ele também, porque isso une a torcida.

Como vê a reformulação que o clube vive hoje?
Uma reformulação é sempre muito difícil e requer paciência. Primeiro tem que ajustar a parte financeira, trazer os jogadores de acordo com o dinheiro que você tem, economizar e ainda pensar em fazer um bom papel, disputar títulos. É muito difícil porque às vezes a torcida não tem a tolerância que precisa para reformular e o São Paulo já está há um tempo sem ganhar títulos. Então a torcida precisa estar preparada para sofrer. É como o país agora. O Brasil precisa se reformular, se reordenar, então vai sofrer também.

Rogério Ceni tem pensado na ideia de treinar o São Paulo no futuro. Você que já esteve lá em 1997 tem algum conselho a ele?
Olha, primeiro precisa ter a vocação para ser treinador. No futebol você pode ser treinador, coordenador técnico, ou pode escolher uma carreira mais política, que seria como conselheiro ou diretor executivo. Mas para ser treinador, é mais difícil porque você depende muito do time. A gente tem visto muitos treinadores sendo demitidos na Europa porque os jogadores não rendem em campo. Então o Rogério vai ter que escolher para que lado ele vai.

O que a chegada do Lugano representa para o clube hoje na sua opinião?
Acho que agora, com a saída do Rogério e do Luis Fabiano, precisa de liderança, de jogadores mais experientes. O Lugano vai dar um pouco mais de segurança na defesa, vai instruir, ensinar os mais jovens, para que aprendam um pouco mais. O treinador comanda, mas fica do lado de fora, fala antes do jogo. Quando o jogo começa, as coisas vão mudando muito rápido e só quem está lá dentro pode dar as orientações. Por isso que em todos os times campeões que vimos – seja do São Paulo ou qualquer outro – tem quatro ou cinco jogadores mais experientes. Difícil ter um time só de jovens ganhando títulos. Só se for um torneio curto. Mas não é só o Lugano, não. Precisa trazer jogadores no meio e na frente também, para assumir essas lideranças que o treinador não consegue assumir no meio do jogo.

É aquela questão que o Raí fala, que precisa haver várias lideranças dentro do time…
Sem dúvida. Nós que jogamos futebol sabemos que todo time que foi campeão não tinha um líder só. Não existe líder único. São vários. Nem precisa ser tão rodado. Há líderes com 27, 28 anos. E são lideres porque, além de já ter experiência e jogarem bem, têm uma entrega, morrem pelo time dentro de campo e isso contagia os demais jogadores.

Campeão Brasileiro de 1986: aquele título que jamais esqueceremos

Falando em morrer pelo time, você acha que faltou raça ao São Paulo em 2015?
Ah, eu evito usar essa palavra porque a gente não esta lá dentro para saber.

Digo mais no sentido de sofrer com a derrota. O próprio presidente reconheceu isso.
Não sei. De fora não tem como saber o que faltou. De dentro talvez alguém fale porque viu alguma coisa. O que houve foi um desmanche e o time ficou sem padrão de jogo, não teve uma continuidade.

Você e Oscar formaram uma das melhores duplas de zaga da história do clube. Por que o São Paulo tem tido tanta dificuldade para encontrar uma dupla de zaga mais sólida?
Olha, ultimamente o São Paulo não teve uma dupla de zaga sólida, mas tem que lembrar que a defesa não é só com dois zagueiros. São dois zagueiros, dois laterais e pelo menos um volante defensivo. Falta zagueiro? Tudo bem, mas na época do Muricy jogavam com três zagueiros e com dois volantes, sendo um mais forte ali no meio. Hoje a defesa não tem a mesma compactação. Eu e o Oscar formamos uma boa dupla de zaga porque, além de jogarmos muitos anos juntos, tínhamos um goleiro, dois laterais e um volante que ajudavam pra caramba. Além disso, o time todo marcava. O novo treinador argentino [Edgardo Bauza] fala que, para um time marcar bem, tem que começar a marcar lá na frente. Se eles não ajudarem, o adversário vai envolvendo e no fim só a defesa paga o pato.

Você chegou ao São Paulo em 1977 para substituir o Pedro Rocha. Qual foi a maior mudança que você sentiu na vinda ao Brasil e por que a sua adaptação demorou tanto?
Primeiro porque eu não jogava na mesma posição do Pedro Rocha. Fui colocado como o número 10, mas nunca joguei nessa função. Eu era um volante defensivo, que só ataca de vez em quando. O problema é que nessa posição estava o Chicão, que era da Seleção Brasileira, aí fui deslocado para a armação. Outra coisa difícil na época foi que emagreci uns três quilos porque a comida era totalmente diferente aqui. A uruguaia era a base de carne, batata, e aqui era só arroz com feijão e uma carne de panela. Eu não me adaptei bem a isso. Só melhorou depois que eu trouxe a minha família e mudei a alimentação. Naquela época não havia nutricionista, com tudo disponível, como hoje. Era tudo muito simples.

Ao lado de três de suas quatro conquistas do Campeonato Paulista

Em 1980, Carlos Alberto Silva o escalou pela primeira vez na zaga e você se firmou. Como foi essa mudança para um jogador já consagrado?
Aconteceu numa casualidade. Era um jogo contra o Corinthians em que vencemos e quebramos um tabu. Aí não saí mais e joguei nessa posição até o final.

* O SPFC estava há 4 anos (12 jogos) sem vencer o Corinthians, quando em 13/7/1980, o time venceu por 1 a 0 no Morumbi, gol de Serginho. Darío entrou na zaga no lugar de Gassem, no decorrer do jogo. No jogo seguinte contra o rival, em 10/8/1980, Darío, já titular na posição, ajudou o time a vencer por 4 a 0.
[fonte: Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube]

Você saiu do SPFC em 1988 de uma forma um tanto conturbada. O que aconteceu?
Isso foi uma questão da diretoria. Chega uma hora que o jogador ou se aposenta ou sai, para que tenha uma renovação. Excetuando o caso do Rogério Ceni, quase todos os jogadores chegam num momento em que vão jogar em outro lugar. Eu fui para o Flamengo, depois Palmeiras e depois para o Japão.

Devo reconhecer que vê-lo vestir a camisa verde foi um tanto doloroso…
Mas isso faz parte. Como falei, quando chegam novos dirigentes, eles querem novos jogadores, querem renovar. É normal.

[nota: Após o Paulista de 1988, Darío Pareyra, prestes a completar 32 anos, deixou o São Paulo para jogar no Flamengo. À época, o clube era presidido por Juvenal Juvêncio, eleito em abril daquele ano, sucedendo a Carlos Miguel Aidar]

Além de admirar o futebol uruguaio, muitos sãopaulinos tem procurado conhecer mais sobre a cultura do país. Alguns inclusive deixaram de torcer pela Seleção Brasileira para torcer pela Celeste. De onde você acha que vem tanta identificação?
(risos) Não sei. O que sei é que, quando vou ao Uruguai e encontro com as pessoas, vejo que os uruguaios sempre gostaram de receber brasileiros, tratam todos muito bem. Sempre houve uma admiração. E também pelo jeito das pessoas. O uruguaio é mais tranquilo, quieto, e o brasileiro é brincalhão, conversa com todo mundo, é simpático. E lá, como é um país pequeno, é bem ordenado, tudo funciona mais ou menos bem, tem uma educação boa, é um lugar bem tranquilo, você pode andar na rua de madrugada. As pessoas se sentem muito bem. E os são-paulinos gostam mais ainda pela identificação com os jogadores uruguaios que atuaram pelo clube, porque vieram e conquistaram títulos.

Autografando o último manto que ele vestiu no Morumbi

Há um senso de companheirismo na Celeste que não é comum em outras seleções. O caso mais recente foi do fisioterapeuta Walter Ferreira, que morreu no início do ano.
Lá se valoriza muito a amizade, a lealdade e, quando o jogador vem atuar pela Celeste, ele vem como se fosse para uma guerra, para dar o máximo, para morrer em campo, porque ele sabe que vai ser lembrado por isso. Isso vem da nossa história. Nossos triunfos não foram na técnica, foram muito mais na garra, porque os adversários eram sempre superiores. Então, quando conseguimos nossos títulos, em que se evocam todas essas façanhas, sempre foi como franco atirador. O Nacional e o Peñarol foram campeões do mundo desse jeito também. O Uruguai nunca teve esse sentimento de “somos os melhores do mundo”. Mesmo quando foi melhor que o Brasil em Copas, como em 2010, foi na base da união, da garra, da vontade.

Falando de 2010, a Celeste renasceu naquela copa depois de um período de ostracismo. Como você viu esse ciclo?
Foi a geração. A geração de jogadores tem que ser boa. Em 2010, tínhamos o Suarez, o Forlán e o Cavani. Se tira esses três, acaba. Veja o Barcelona hoje. Funcionou com Guardiola, funciona com Luiz Enrique, mas quem joga? Se tirar o Messi, Neymar e Suarez e colocar outros três, vai funcionar do mesmo jeito? Não vai. O que o Uruguai teve foi uma safra muito boa. Agora, na seleção de Portugal, Cristiano Ronaldo joga praticamente sozinho. É um baita jogador, mas precisaria de quatro jogadores bons, pelo menos.

E no campeonato uruguaio, torce pelo Nacional? Acompanha os jogos?
Não acompanho muito porque eu fico aqui o tempo todo e tem muito jogo para ver. Copa do Brasil, Paulista, Brasileiro e tem os europeus, então é difícil acompanhar.

De todos os convocados da Celeste para a Copa de 2014, nenhum jogava no Uruguai. Por que um futebol tão tradicional como o uruguaio não consegue segurar nenhum jogador no país?
Aí já é um problema econômico. Igual aqui no Brasil.

Mas aqui ainda tem alguns…
Mas porque o Brasil é a potência da América do Sul e nem assim consegue segurar jogadores que vão para a Seleção. A Argentina também não consegue. Imagina o Uruguai. No Chile, toda aquela equipe campeã da Copa América veio de fora. Na Europa pode ser diferente, mas se pegar as seleções da Rússia e da Ucrânia é a mesma coisa. A imigração é muito grande. Onde tiver jogador bom, ele vai embora. Não importa que seja seleção paraguaia, boliviana…

E agora a China está entrando forte.
É, hoje tem a China. Os jogadores vão onde está o mercado. É muito dinheiro envolvido e o futebol uruguaio não tem condições de pagar. Teve o filho de um primo meu que tinha 19 anos, fez uma partida boa e já foi vendido para a Ucrânia. E ele nem foi pra jogar! Foi para compor um plantel para render no futuro. Futebol hoje é isso. Compra para jogar daqui dois anos.

Dia 24/3 tem Brasil x Uruguai pelas eliminatórias. Como estará o seu coração nesse dia?
Ah, eu torço pelos dois! Como não tem como os dois ganharem, eu assisto pensando que quem jogar melhor e merecer ganhar, ganha. Eu moro aqui, não posso torcer para o Brasil não classificar, e também não vou torcer contra o Uruguai. Já teve uma época que eu torcia mais para o Uruguai, mas agora, quando tem essa situação, eu fico neutro. Não tem como não ficar! (risos)

Está bien, nosotros sabemos por quien hinchas, Don Darío!
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