Entrevista Raí: “Mata-mata seria um retrocesso gigante”

Em suas duas passagens pelo São Paulo, Raí ficou conhecido como “O Terror do Morumbi”. Liderança, visão de jogo, gols e muitos títulos o fizeram um dos maiores ídolos da Torcida Tricolor. Mas sua figura transcendeu a de ídolo. Virou embaixador, se embrenhando em causas como a Fundação Gol de Letra e em discussões sobre melhorias no esporte brasileiro. Em 2015, foi convidado pela ESPN para ser novamente embaixador, dessa vez representando o SPFC nessa Libertadores. No dia 2 de março, o eterno camisa 10 tricolor participou de uma entrevista coletiva junto a outros quatro embaixadores: Sorín (Cruzeiro), Marques (Atlético), Rincón (Corinthians) e Iarley (Inter), respondendo a perguntas de jornalistas de vários veículos.

Ao SPFCharges, Raí concedeu uma entrevista exclusiva, por telefone.

Você chegou ao SPFC em 1987, mas só explodiu depois da chegada do Telê ao clube, três anos depois. O que ele fez de diferente para que seu futebol explodisse?
Foi uma coincidência boa. Quando cheguei, no final de 1987, era um período de adaptação. Já em 1989 fomos campeões paulistas, e eu já era capitão do time. Foi uma evolução gradual, que se acentuou quando o Telê chegou. Pelo meu estilo de jogar e com a maturidade, fui chegando ao auge, diferente de muitos jogadores hoje, que explodem com 19, 20 anos. Meu auge foi um pouco mais à frente, com 25, 26 anos. Mas o Telê fez com que eu pudesse ir muito mais longe, começou a me fazer um jogador muito mais completo. Antes eu era um jogador mais de armação, depois comecei a ser um artilheiro também. Obviamente que, com o esquema tático, os treinamentos de fundamentos e finalização, todos dentro da equipe subiram de produção.

Entre 1990 e o início de 1991 seu nome foi envolvido em algumas negociações, mas Telê vetou. O que você lembra desse período?
Teve uma possibilidade de eu ir para o Flamengo. Jogadores foram trocados, foi quando o Leonardo veio para o São Paulo e o Flamengo ficou interessado no meu nome, mas nunca pensei em sair do São Paulo [na troca, ocorrida em 1990, Leonardo e Alcindo vieram para o São Paulo e Bobô, Adílson e Nelsinho foram para o Flamengo]. O Telê contava com o meu futebol e acreditava que eu, mesmo ainda não estando no auge, tinha muito a contribuir com o São Paulo.

O time campeão da Libertadores de 1992 foi sendo construído ao longo da competição, com Palhinha, Pintado e Adílson se firmando no time titular. Quando você percebeu que o São Paulo tinha chance real de título?
Em 1991 fomos campeões paulistas, e o time tinha um entrosamento tático muito bom. Eu estava perto do meu auge – tinha feito 3 gols na final –, mas ainda faltava um pouco mais de qualidade, com jogadores com mais refinamento técnico. O Palhinha agregou muito no meio de campo, o Ronaldo Luis foi outro jogador que fez com que o time melhorasse, o Muller estava numa fase esplendorosa. Então era a base de 1991 acrescida de jogadores mais técnicos, que fez com que subíssemos de produção. O que me fez acreditar que o time ia ganhar era que tínhamos uma base muito sólida, com Zetti, Ronaldão, Adílson, Pintado, que já estavam numa fase mais madura, e aliavam técnica e garra, incorporando aquele espírito da Libertadores.

A história do São Paulo Futebol Clube pode ser dividida entre antes e depois desse título?
É difícil dividir uma história tão longa e importante como a do São Paulo, mas sem dúvida foi esse um dos grandes momentos que marcaram a história do clube. Foi um momento em que o torcedor teve um papel muito importante e quando o São Paulo passou a ter uma relevância internacional. Era um clube grande no Brasil, mas ainda pouco conhecido no exterior e houve uma expansão muito grande do clube para um nível internacional. Então teve essas duas coisas: um crescimento exponencial da torcida em todas as regiões do país, incluindo Norte e Nordeste, e a importância internacional, que fez do São Paulo o melhor time do mundo em 1992 e 93.

Telê tinha a filosofia de que, para vencer a Libertadores, podia até perder fora de casa, mas era preciso sempre fazer o placar em casa. Ainda é possível ser campeão dessa forma? O que mudou de lá para cá?
É um torneio que, a partir do momento em que chega no mata-mata, é decidido nos detalhes e precisa ter muita entrega. Isso é um diferencial que continua. Então o que faz você ter mais probabilidade de ser campeão e passar pelas fases de mata-mata é ter uma equipe estruturada, confiante e que saiba definir nos momentos mais importantes da competição.

Você disse que o melhor time em que já atuou foi no SPFC bicampeão da Libertadores em 1993, quando o time dava show em campo. Mas naquele campeonato houve duas disputas duríssimas contra o Cerro Porteño, onde jogavam Arce, Gamarra e Mondragón. O que você lembra desses duelos?
Sim, tiveram outras fases mais difíceis. São circunstâncias que acontecem durante uma Libertadores. No geral, apesar de essa fase [semifinal] ter sido muito mais difícil do que a final – quando ganhamos de 5 a 1 –, a gente nunca sentiu que poderia perder, mesmo nos momentos de maior tensão. Estávamos num estágio de maturidade e confiança ainda maiores do que em 1992. Mas o Cerro foi sem dúvida a passagem mais dura nessa competição.

Você foi ídolo do SPFC e seu irmão foi ídolo no rival. Havia alguma provocação ou rivalidade entre vocês?
Não, nunca teve isso. Havia algumas brincadeiras, mas nada muito exagerado. A gente gostava de assistir aos jogos juntos e comentar, mas não era uma rivalidade exagerada.

Com o futebol brasileiro tomado por dirigentes incompetentes, por que você escolheu atuar por fora do futebol?
Escolhi meu caminho por outra esfera, com a Fundação Gol de Letra, o que me levou a outros projetos que me deixaram um pouco mais distante do dia a dia do clube – o que não quer dizer que eu não esteja acompanhando. Tenho uma instituição chamada Atletas Pelo Brasil, que atua no esporte em geral, não só no futebol. Mas acho importante ter pessoas que atuem por dentro do sistema tentando mudar com ideias novas, como meu sobrinho, que atua como dirigente do São Paulo [Gustavo Vieira de Oliveira é diretor remunerado do clube]. Pessoas que atuam para melhorar a qualidade da gestão. Acho importantíssima a participação de atletas e ex-altletas em movimentos que visem à melhora do esporte em geral. Atuar fora de um clube pode ser tão importante quanto estar dentro dele, buscando melhorias e propostas. Para fazer política você não precisa ser deputado, se fizer parte de um movimento já estará atuando.

No seu tempo de SPFC, o time chegava a jogar três vezes numa semana. Hoje os jogadores mal conseguem atuar duas vezes por semana. A parte física exige muito mais dos jogadores hoje?
Acho que hoje é muito diferente a intensidade com se joga uma partida. A parte física evoluiu bastante, mas também tem os seus limites. Na minha época nenhum time tinha o luxo de poder fazer revezamento de jogadores como fazem hoje. E hoje quem não fizer esse revezamento, corre o risco de ficar em desvantagem em relação aos outros. Então são dois fatores: primeiro porque os outros fazem o rodízio, e tem jogos que são mais importantes e às vezes outro jogador está mais inteiro; e em segundo a questão do preparo físico, que hoje é muito mais intenso e acaba levando o atleta ao seu limite.

A discussão sobre a volta do mata-mata no Brasileiro retornou com força, tendo o apoio de vários clubes. Qual sua opinião sobre isso?
Acho um retrocesso gigante. Acho que mata-mata já tem na Copa do Brasil, na Libertadores, na Copa Sulamericana. Não faltam competições com mata-mata. O Campeonato Brasileiro com pontos corridos é a forma mais justa, é onde os times podem achar o seu equilíbrio técnico e tático. É também a certeza de que os times terão a temporada toda com jogos pois, com mata-mata, muito times ficam novembro e dezembro sem jogar. Além dos patrocinadores, que investem muito na camisa dos times correm o risco de ficar fora de uma fase final e não ter sua marca exposta nas últimas rodadas, desvalorizando a propriedade que o clube tem a oferecer. É um pensamento muito curto achar que o mata-mata vai trazer algum benefício. É emocionante e tem as suas belezas, mas ter uma competição nacional por pontos corridos que envolva os melhores times do país é fundamental.

E quanto ao SPFC atual? Você disse que o time precisa de mais de um líder em campo, além do Rogério Ceni. Quem poderia exercer esse papel?
Isso só quem está dentro do clube pode avaliar melhor o perfil dos jogadores, a personalidade de cada um. Acho que tem alguns jogadores ali, como o Souza, que já passou pela seleção brasileira, o próprio Luis Fabiano. O Ganso, um jogador que pela sua importância na parte prática e técnica, poderia exercer esse papel. O Rogério está aí por mais um tempo, mas é bom que outros líderes comecem a despontar e se colocar numa posição de mais cobrança. Como a liderança do Rogério já existe há algum tempo, pode ter havido uma acomodação, mas o São Paulo precisa desses outros jogadores que estão se destacando para que se alternem nesse papel.

Você mencionou o Paulo Henrique Ganso. O que falta a ele para ser um jogador mais decisivo?
Acho que ele já é um jogador decisivo. Claro que o time que começou a temporada, de uma maneira geral, sabe que precisa melhorar bastante. O Ganso pode contribuir para a melhora do time, e essa melhora também pode contribuir para que ele se torne ainda mais decisivo. Acho que está no caminho certo. É um jogador muito inteligente, acima da média tecnicamente. Assim como eu tive a questão do tempo para amadurecer e chegar ao meu auge na carreira, lá pelos 25, 26 anos, pode acontecer o mesmo com ele. Confio bastante nele e acho que é um super craque.

Uma reclamação constante sobre o estilo de jogo do SPFC é que o time só fica trocando passes e não chuta a gol. Você concorda? Como mudar essa postura do time?
O Muricy sabe que dá para melhorar bastante. Nenhum dos jogadores ainda está tão confiante. Você ter o controle de bola já mostra uma evolução, mas na minha opinião, faltam os movimentos táticos mais sincronizados, que surpreendem a defesa adversária, com volantes e meias que chegam de trás se revezando com o centroavante. Ou jogadores que estão jogando mais abertos, como o Pato faz. Acho que ter o controle de bola é uma coisa, mas a surpresa, o passe decisivo, a profundidade sempre vêm com um homem-surpresa, com alguma movimentação – ou com uma jogada individual. Acho que está faltando melhorar essa movimentação para a chegada do homem-surpresa – seja um lateral, seja o volante que chega à frente. Em alguns momentos isso tem dado certo, mas não ainda com a frequência necessária. Acho que só a sincronia de posições no meio-campo e ataque vai fazer com que o time seja mais agudo e crie mais chances de gol. E isso vem com o trabalho. Tenho certeza de que o Muricy está atento a isso.

Você encerrou a carreira logo após a perda do título para o Cruzeiro na final Copa do Brasil de 2000, mas negou que aquela derrota fosse determinante nessa decisão. Contudo, declarações suas anteriores àquela final eram de que estava na hora de o SPFC voltar à Libertadores. Se o SPFC ganhasse aquele título, você jogaria a Libertadores de 2001? Quinze anos depois, como você vê a decisão de se aposentar?
Na verdade, essa era uma decisão que já estava bem amadurecida. Meu contrato já tinha se encerrado e ainda fiquei mais dois meses. Nos treinos já havia comentado com os dirigentes que eu queria parar. Mas queria parar deixando o São Paulo numa Libertadores, até porque naquela época era mais difícil classificar, pois tinham menos vagas. Foi um grande jogo, mas numa fatalidade acabamos perdendo. Depois disso, aceitei jogar mais alguns jogos pela Copa dos Campeões, que também dava vaga para a Libertadores. Mas mesmo que tivéssemos vencido o jogo contra o Cruzeiro, eu teria parado ali. Era uma decisão tomada, sabia que estava ficando mais difícil de jogar, pois eu tinha operado o joelho dois anos antes, então nada mudaria nesse sentido. Era só o desejo de terminar como campeão da Copa do Brasil e deixar o time classificado para a Libertadores.

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